O aquecimento global e seu imposto predial

O Rio de Janeiro, mais alguns metros de oceano

Emissões humanas de gases do efeito estufa? Ciclos naturais? Uma coisa incrementando a outra?

O certo é que não importa a causa: o aquecimento global é um fato. A temperatura média deste planeta está crescendo. E contra fatos não há argumentos.

E já há quem considere que fazer algo contra essa tendência é impossível – ou tarde demais.

Nos cenários de previsão mais conservadores, o aumento das temperaturas (por conta, principalmente, do derretimento nas calotas polares) fará com que o nível de água dos oceanos suba de 80 cm a dois metros até 2100. Parece pouco. Mas basta para por debaixo d’água as moradias e empregos de milhões. E há quem fale (sério) num aumento de 6 metros – ou mais.

Suponhamos que o nível médio do mar suba, digamos, dois metros. É o limite superior das projeções mais conservadoras. Suficiente, contudo, para colocar no caminho das marés parte significativa de cidades como Rio de Janeiro, Salvador, Belém e Florianópolis – moradias, locais de trabalho, instalações públicas, hospitais e tudo o mais que estiver ao seu alcance.

Parece uma boa hora para se fazer algo a respeito. Mas o quê?

Que tal diques? Depois do furacão Katrina, melhor não. Os diques não só não se agüentaram como transformaram Nova Orléans num tanque de esgoto. E com o mar mais quente, virão mais furacões. Maiores, mais fortes. E mais assanhados. Sem vergonha de sambar em lugares de clima mais decente, como o Brasil.

Os diques de Nova Orleans não foram páreo para o furacão Katrina

Que tal cúpulas metropolitanas, feitas de alguma liga transparente? Chique, não? É, já propuseram isso. Mas fique dentro de um carro com os vidros fechados, em pleno verão, sob o sol de Salvador, suba a temperatura global e descubra como se sente um acarajé, no tacho da baiana.

Cúpula proposta (a sério) para Houston, Texas (Estados Unidos)

O jeito é sair do caminho da natureza. Ela não aceita desaforo. Bebemos petróleo adoidado, fumamos florestas, empanturramo-nos de espécies, cheiramos minérios que nem pó – no mau sentido. É hora da faxina, do bota-fora, de cobrar os prejuízos. Como em qualquer boteco vagabundo; aliás, o planeta virou foi isso mesmo.

A natureza  já fez isso antes (pensando bem, um bom hábito – para ela). Já se perdeu a conta de quantas cidades antigas, bonitinhas (com estátuas de pedra branca, praças e tudo o mais) foram achadas à beira-mar – do lado errado. Não tem jeito: a conta não sai barata, e todos teremos de pagá-la.

O prefeito (ou rei, ou o que o valha) da cidade acima perdeu a chance de salvar a cidade - e o mandato

Portanto, melhor começar a pagar agora, adiantado, e em parcelas homeopáticas.

Mas como desocupar as áreas reclamadas pelo mar? Os governos sabem e os noticiários demonstram como é difícil tirar pessoas (físicas ou jurídicas, não importa) de casa, mesmo quando está para cair – ou já caiu.

Aos poucos, e com antecedência, ora essa! Antes das inundações. Diluindo o custo ao longo do tempo, e antes do prazo de vencimento – cada vez mais próximo, e o pior: incerto.

Eu sei que vai parecer mentira, mas os governos têm como fazer isso. É só planejar em longo prazo, e cumprir as metas (haja otimismo). Por exemplo: toda vez que é de interesse do poder público, ele desapropria áreas privadas, realoca as pessoas e paga indenizações como compensação. É assim que se constroem estradas, represas, aeroportos. Ou seja, praticamente qualquer obra pública de grande porte que exija o deslocamento de pessoas e bens.

O poder público também usa a manipulação (no bom sentido, espera-se) da tributação de ocupação territorial, criando uma tendência para a realocação. O recurso é muito usado na reestruturação de bairros, por exemplo. É mais complicado de fazer, mas também funciona. O governo criaria incentivos fiscais atrativos para as áreas de reassentamento, em detrimento das áreas condenadas pelo oceano – ou aumentaria o imposto destas (você me xingou, não foi? Avisei que era complicado).

Estas alternativas são algumas das poucas com que contamos para realizar a evacuação “lenta, gradual e segura” dos litorais, com a realocação de milhões de habitantes e negócios para uma distância segura.

Nada menos que a maior obra pública da história do mundo. Que nós podemos começar agora, parcelando em uns 80 anos, com desconto. Ou esperar o mar fazer – sem desconto, e à vista.

Fontes:

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