O aquecimento global e seu imposto predial

11/01/2012

O Rio de Janeiro, mais alguns metros de oceano

Emissões humanas de gases do efeito estufa? Ciclos naturais? Uma coisa incrementando a outra?

O certo é que não importa a causa: o aquecimento global é um fato. A temperatura média deste planeta está crescendo. E contra fatos não há argumentos.

E já há quem considere que fazer algo contra essa tendência é impossível – ou tarde demais.

Nos cenários de previsão mais conservadores, o aumento das temperaturas (por conta, principalmente, do derretimento nas calotas polares) fará com que o nível de água dos oceanos suba de 80 cm a dois metros até 2100. Parece pouco. Mas basta para por debaixo d’água as moradias e empregos de milhões. E há quem fale (sério) num aumento de 6 metros – ou mais.

Suponhamos que o nível médio do mar suba, digamos, dois metros. É o limite superior das projeções mais conservadoras. Suficiente, contudo, para colocar no caminho das marés parte significativa de cidades como Rio de Janeiro, Salvador, Belém e Florianópolis – moradias, locais de trabalho, instalações públicas, hospitais e tudo o mais que estiver ao seu alcance.

Parece uma boa hora para se fazer algo a respeito. Mas o quê?

Que tal diques? Depois do furacão Katrina, melhor não. Os diques não só não se agüentaram como transformaram Nova Orléans num tanque de esgoto. E com o mar mais quente, virão mais furacões. Maiores, mais fortes. E mais assanhados. Sem vergonha de sambar em lugares de clima mais decente, como o Brasil.

Os diques de Nova Orleans não foram páreo para o furacão Katrina

Que tal cúpulas metropolitanas, feitas de alguma liga transparente? Chique, não? É, já propuseram isso. Mas fique dentro de um carro com os vidros fechados, em pleno verão, sob o sol de Salvador, suba a temperatura global e descubra como se sente um acarajé, no tacho da baiana.

Cúpula proposta (a sério) para Houston, Texas (Estados Unidos)

O jeito é sair do caminho da natureza. Ela não aceita desaforo. Bebemos petróleo adoidado, fumamos florestas, empanturramo-nos de espécies, cheiramos minérios que nem pó – no mau sentido. É hora da faxina, do bota-fora, de cobrar os prejuízos. Como em qualquer boteco vagabundo; aliás, o planeta virou foi isso mesmo.

A natureza  já fez isso antes (pensando bem, um bom hábito – para ela). Já se perdeu a conta de quantas cidades antigas, bonitinhas (com estátuas de pedra branca, praças e tudo o mais) foram achadas à beira-mar – do lado errado. Não tem jeito: a conta não sai barata, e todos teremos de pagá-la.

O prefeito (ou rei, ou o que o valha) da cidade acima perdeu a chance de salvar a cidade - e o mandato

Portanto, melhor começar a pagar agora, adiantado, e em parcelas homeopáticas.

Mas como desocupar as áreas reclamadas pelo mar? Os governos sabem e os noticiários demonstram como é difícil tirar pessoas (físicas ou jurídicas, não importa) de casa, mesmo quando está para cair – ou já caiu.

Aos poucos, e com antecedência, ora essa! Antes das inundações. Diluindo o custo ao longo do tempo, e antes do prazo de vencimento – cada vez mais próximo, e o pior: incerto.

Eu sei que vai parecer mentira, mas os governos têm como fazer isso. É só planejar em longo prazo, e cumprir as metas (haja otimismo). Por exemplo: toda vez que é de interesse do poder público, ele desapropria áreas privadas, realoca as pessoas e paga indenizações como compensação. É assim que se constroem estradas, represas, aeroportos. Ou seja, praticamente qualquer obra pública de grande porte que exija o deslocamento de pessoas e bens.

O poder público também usa a manipulação (no bom sentido, espera-se) da tributação de ocupação territorial, criando uma tendência para a realocação. O recurso é muito usado na reestruturação de bairros, por exemplo. É mais complicado de fazer, mas também funciona. O governo criaria incentivos fiscais atrativos para as áreas de reassentamento, em detrimento das áreas condenadas pelo oceano – ou aumentaria o imposto destas (você me xingou, não foi? Avisei que era complicado).

Estas alternativas são algumas das poucas com que contamos para realizar a evacuação “lenta, gradual e segura” dos litorais, com a realocação de milhões de habitantes e negócios para uma distância segura.

Nada menos que a maior obra pública da história do mundo. Que nós podemos começar agora, parcelando em uns 80 anos, com desconto. Ou esperar o mar fazer – sem desconto, e à vista.

Fontes:

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Umas verdades sobre a verdade

29/08/2011
Tomando ciência

Ciência vicia (do latim: "scientia vinces")*

Ciência nada mais é que a tentativa racional (geralmente) de descobrir a verdade – qualquer que seja esta verdade. E se alguém concorda que a verdade é uma coisa boa, portanto, a ciência é uma coisa boa. Nem sempre agradável – mas boa.

E você?  Concorda?

Caso concorde, caro leitor, convido-lhe a assumir você também o fardo da busca e da aceitação da verdade. E usando o pouco que ainda se sabe sobre ela, escrutinar seus nós, unir suas pontas, e humildemente dar nossa pequena contribuição ao trabalho de tecê-la.

Afinal, nossa vida é um mero espasmo, e vem gente atrás – que depende do bom termo de nosso trabalho para começar o seu.

Todo ser humano é, por natureza, um cientista. Há os bondosos, os perversos, os incansáveis, os relapsos, os competentes, os estúpidos, os profissionais (alguns), os amadores (muitos mais), e até – pasme! – os anti-cientistas.

“Porcaria nenhuma!” – talvez você pense. “Cientistas são aqueles sujeitos com aventais brancos, que ficam horas lá, no laboratório, tentando fazer alguma descoberta ‘interessante’!”. Pois eu lhe peço, amigo leitor: reconsidere. Aqueles lá são apenas uma fração da honrada fração dos profissionais, popularizados pelos meios de informação de massa como um estereótipo do que um cientista (profissional) deveria ser. (Não sem razão: aqueles sujeitos livraram nossa cara de quase todas as enfermidades que nos afligiam – e continuam livrando).

Ocorre que cientista é também o lavrador, que matuta como se livra da praga daquele ano. O empresário, que tenta descobrir como se livra da falência – ou dos concorrentes. É o artista, no subjetivo mergulho no mar das almas, em busca do sublime toque de sentimento que lhe consagre. É a sua avó, na cozinha, acertando a mão naquele biscoito que você ama. Enfim: todo aquele cujo modo de vida dependa da verdade.

Não usam o método científico de Descartes? Está bem, vá lá, é bem provável que sua sofisticação não ultrapasse o conhecimento empírico, talvez nem mesmo o puro e simples sentimento (e lá existe razão sem emoção, ou vice-versa?). Mas buscam uma verdade. Talvez não tão crucial quanto a origem do universo. Mas talvez importante para coisas muito importantes – como matar sua fome, manter seu emprego… e satisfazer seu paladar, oras!

Portanto, amigos, somos todos cientistas. E buscamos a verdade. Mesmo que doa. Não adianta: é cachaça, amigo, é vício – herdado de um primata africano qualquer.

Se iremos colocá-la à luz ou se iremos ocultá-la, constrangidos, é outra história.

*A tradução é tão falsa quanto uma nota de 3,00 – seja qual for a moeda. Mas não se sinta culpado: nosso currículo escolar omitiu o latim, ou a língua portuguesa. Ou ambos.

Cachaça é uma bebida de teor (muito) alcoólico, fabricada cá por estas paragens, a partir de um mato gigante e doce, a cana-de-açúcar. Aos que porventura lhe provarem, recomenda-se (muita) moderação.


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